Como destaca o empresário Felipe Rassi, as eleições, guerras, sanções econômicas e crises diplomáticas têm algo em comum além da manchete: todos movem mercados de formas que muitas vezes surpreendem até os analistas mais experientes. A relação entre política e finanças é antiga, mas raramente ensinada com a profundidade que merece. Investidores que ignoram o contexto geopolítico tendem a ser pegos de surpresa por movimentos bruscos de preço que, retrospectivamente, pareciam previsíveis.
Este artigo examina os mecanismos pelos quais eventos políticos se traduzem em volatilidade financeira, quais ativos reagem com mais intensidade e o que observar antes que o mercado já tenha precificado o risco.
De que forma eleições e mudanças de governo impactam os mercados financeiros?
As eleições são, por natureza, eventos de incerteza. Mesmo quando as pesquisas apontam um resultado provável, o mercado precisa processar cenários alternativos e atribuir probabilidades a políticas econômicas que ainda não existem. Essa incerteza se manifesta em prêmios de risco mais altos, aumento de volatilidade e, frequentemente, uma tendência de redução de exposição por parte de investidores institucionais nos meses que antecedem o pleito. O fenômeno é global, mas se intensifica em países emergentes como o Brasil, onde a alternância de poder costuma trazer mudanças mais profundas na política fiscal e regulatória.
Conforme Felipe Rassi, o impacto de uma eleição sobre o mercado depende menos do partido vencedor do que da coerência e previsibilidade da agenda econômica que se anuncia. Mercados toleram discordâncias ideológicas desde que as regras do jogo sejam minimamente estáveis. O que gera disfuncionalidade é a incerteza sobre o arcabouço fiscal, a autonomia do banco central, o respeito a contratos e a política cambial. Quando esses elementos ficam em dúvida, o capital migra para ativos de menor risco e o custo de financiamento do país sobe, independentemente de quem tenha ganho a eleição.
Há um padrão histórico bem documentado de comportamento dos mercados em torno de eleições: tendência de compressão da volatilidade nos meses anteriores, à medida que o resultado se torna mais claro, um pico de volatilidade próximo ao dia do pleito e, após o resultado, um ajuste de posicionamento que pode durar semanas. Investidores que entendem esse ciclo conseguem posicionar carteiras de forma a se beneficiar da volta à normalidade pós-eleitoral ou a se proteger de surpresas políticas que o mercado não havia precificado adequadamente.
Como guerras e sanções se transmitem para os preços de commodities e câmbio?
Conflitos armados afetam mercados financeiros por mecanismos diretos e indiretos que se retroalimentam. O canal mais imediato é o de commodities: guerras em regiões produtoras de petróleo, gás, grãos ou metais criam instantaneamente expectativas de escassez que se traduzem em alta de preços. A invasão russa da Ucrânia em 2022 é o exemplo mais recente e contundente: em questão de dias, o trigo, o milho, o petróleo e o gás natural dispararam em mercados internacionais, forçando bancos centrais ao redor do mundo a revisar projeções de inflação e trajetórias de juros.

De acordo com o especialista no mercado financeiro, Felipe Rassi, as sanções econômicas funcionam como um instrumento de guerra financeira com consequências frequentemente subestimadas no curto prazo. Ao excluir um país do sistema de pagamentos internacional, como aconteceu com a Rússia após 2022, ou ao restringir acesso a tecnologia e mercados de capitais, os países que impõem sanções afetam não apenas o alvo, mas toda a cadeia de parceiros comerciais e financeiros conectados a ele. Empresas de países terceiros que tinham negócios com a Rússia precisaram reorganizar cadeias de suprimento, reassessar exposições e, em muitos casos, absorver perdas consideráveis.
Quais indicadores acompanhar antes que o mercado já tenha reagido?
Antecipar movimentos de mercado induzidos por eventos políticos requer monitorar fontes de informação que o mercado ainda não absorveu completamente. Mercados de derivativos, especialmente opções sobre câmbio e índices de volatilidade implícita, frequentemente sinalizam elevação de risco antes que os preços dos ativos subjacentes se movam de forma significativa. O VIX, o índice de volatilidade do mercado americano, e equivalentes em outros mercados funcionam como termômetros do nervosismo dos investidores institucionais e tendem a subir antes que grandes eventos políticos se concretizem.
Spreads de crédito soberano são outro indicador sensível à tensão política. Quando o risco percebido de um país aumenta, o custo de seus títulos de dívida sobe relativamente aos títulos de referência, como os treasuries americanos. Segundo Felipe Rassi, essa diferença, conhecida como spread, reflete a avaliação do mercado sobre a capacidade e a disposição do governo de honrar suas obrigações. Monitorar a evolução dos spreads de países relevantes para uma carteira de investimentos é uma forma eficiente de captar deterioração política antes que ela se traduza em crise financeira declarada.
Assim, posicionamento de investidores estrangeiros em títulos de dívida locais, fluxo de capitais para mercados emergentes e nível de reservas cambiais de países sob tensão política completam o painel de monitoramento para quem quer estar à frente das reações de mercado. Esses dados são públicos, divulgados com periodicidade regular pelos bancos centrais e organismos internacionais, e permitem construir uma visão prospectiva do risco político sem depender de análise de cenário especulativa.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez