Quantos donos de empresa realmente sabem o que sobra após o faturamento mensal?

Por Diego Velázquez 5 Min de leitura

Alfredo Moreira Filho, empresário, explica que muitos donos de empresa sabem quanto faturaram no mês e não sabem quanto sobrou. Sabem o saldo da conta, mas não conseguem dizer se ele pertence à empresa, ao fornecedor do mês seguinte ou ao imposto que vence em vinte dias. É esse desconforto que faz a gestão financeira parecer um assunto pesado, quando, na prática, ela existe para reduzir o peso.

Organização financeira não serve para controlar o empresário. Serve para devolver a ele o direito de decidir sem medo. Quem sabe quanto de caixa a operação consome por semana, negocia prazo com outra postura, recusa contrato ruim sem culpa e tira férias sem checar o extrato todo dia. 

Separar o caixa da empresa do bolso do dono

O primeiro passo é o mais simples e o mais adiado. Enquanto a mesma conta paga o fornecedor e a escola do filho, nenhum relatório funciona, porque o número nasce contaminado. A saída é definir um pró-labore fixo, transferido em data marcada, como qualquer outro salário da folha.

O efeito prático aparece rápido. Com o custo do dono registrado como despesa, a empresa passa a mostrar se remunera de fato quem a dirige. Muita operação que parecia lucrativa apenas pagava mal o próprio fundador, avalia Alfredo Moreira ao tratar de organização financeira.

Registrar pela data do fato, não pela data do pagamento

Uma venda fechada em março, recebida em maio, com comissão paga em junho, pertence a qual mês? Pelo regime de competência, a receita e a comissão pertencem a março, quando o negócio aconteceu. Pelo caixa, cada uma aparece em um mês diferente.

Confundir os dois cria meses artificialmente bons e meses artificialmente ruins. O empresário comemora um mês em que apenas recebeu vendas antigas e se assusta com outro que, na verdade, foi bom. A prática útil é manter os dois olhares em paralelo: competência para saber se o negócio dá lucro, caixa para saber se ele sobrevive até o próximo recebimento.

Projetar as próximas semanas antes que elas cheguem

Fluxo de caixa não é o extrato de ontem. É a previsão do que entra e do que sai nas próximas semanas, atualizada com frequência fixa. Um horizonte de treze semanas costuma bastar, porque cobre um trimestre inteiro sem exigir adivinhação sobre o ano.

A planilha mostra o dia exato em que o saldo fica mais apertado. Esse dia é o que orienta a decisão: adiantar recebível, renegociar prazo, segurar uma compra. Alfredo Moreira Filho pontua que esse tipo de antecedência é como a diferença entre escolher a solução e aceitar a que sobrou.

Definir quanto de reserva a operação realmente exige

Reserva não é um número redondo escolhido por conforto. Ela se calcula: some o custo fixo mensal, verifique quantos meses a empresa levaria para reagir a uma queda de receita e multiplique. Negócios com contrato recorrente reagem mais devagar do que parece, porque a queda chega em degrau.

Definido o alvo, a reserva deixa de depender da sobra do mês. Ela vira uma transferência automática, feita antes das despesas variáveis, no mesmo dia do pró-labore. Alfredo Moreira Filho comenta que essa inversão de ordem, poupar antes de gastar, costuma separar empresas que atravessam crises daquelas que apenas as adiam.

A tranquilidade nasce do número, não do otimismo

Empresa organizada não é a que nunca enfrenta aperto. É a que enxerga o aperto com antecedência suficiente para agir. A diferença entre uma situação e outra raramente está no faturamento; está na rotina de registro, projeção e revisão.

Nesse arranjo, a liberdade deixa de ser uma recompensa distante e vira consequência técnica. Quem tem o número na mão decide mais rápido, dorme melhor e trabalha menos horas por obrigação. Gestão financeira, no fim, é o que permite ao empresário voltar a fazer aquilo que o levou a abrir a empresa.

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