Quilombo Tia Eva recebe título de Patrimônio Cultural Brasileiro em Campo Grande

Por Redação Jornal Cultural 6 Min de leitura

A Comunidade Remanescente de Quilombo Eva Maria de Jesus, conhecida como Quilombo Tia Eva, recebeu em 28 de setembro de 2026 o título de Patrimônio Cultural Brasileiro. A cerimônia foi realizada em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em frente à Igreja de São Benedito, uma das principais referências históricas e religiosas do território.

O reconhecimento federal marca a inscrição da comunidade no Livro do Tombo de Documentos e Sítios Detentores de Reminiscências Históricas de Antigos Quilombos. Criado pelo Iphan, o instrumento passa a registrar oficialmente bens relacionados à memória e à trajetória de comunidades quilombolas. O Quilombo Tia Eva é o primeiro inscrito nesse novo livro.

Reconhecimento de uma trajetória histórica

O tombamento do Quilombo Tia Eva foi declarado em março de 2026, e a inscrição no novo Livro do Tombo ocorreu em maio. A entrega do título à comunidade aconteceu durante cerimônia que contou com a participação da ministra da Cultura, Margareth Menezes, conforme informou o Ministério da Cultura.

A medida reconhece a importância histórica, cultural e religiosa do território, além de valorizar a presença de Eva Maria de Jesus e de seus descendentes na formação da comunidade. Tia Eva era uma mulher negra que viveu em condição de escravização, foi alforriada e se estabeleceu na região de Campo Grande no início do século XX.

Sua trajetória está associada a diferentes atividades de cuidado e trabalho. Eva Maria de Jesus atuou como curandeira, cozinheira, lavadeira, parteira e benzedeira. Essas experiências, preservadas na memória dos descendentes, ajudam a compreender a dimensão social e cultural da fundadora para além de sua atuação individual.

Igreja de São Benedito é referência do território

A Igreja de São Benedito ocupa posição central na história do Quilombo Tia Eva. O templo, situado no território da comunidade, é um espaço de devoção e convivência, ligado às tradições religiosas transmitidas entre gerações. A cerimônia de entrega do título diante da igreja reforçou a relação entre o patrimônio reconhecido e as práticas culturais mantidas pelos moradores.

A devoção a São Benedito, as celebrações religiosas e a transmissão de memórias formam parte das referências que dão sentido à comunidade. Nesse contexto, o tombamento não se limita à proteção de uma construção ou de um marco físico. O reconhecimento também considera o território como espaço vivo, onde práticas, lembranças e vínculos comunitários continuam sendo cultivados.

Segundo o Iphan, a inscrição inaugura o novo Livro do Tombo voltado a documentos e sítios detentores de reminiscências históricas de antigos quilombos. A iniciativa amplia a presença da memória afro-brasileira nas políticas de preservação do patrimônio cultural brasileiro.

O que muda com o tombamento

O título oferece uma forma de reconhecimento e proteção institucional para o território e para as referências culturais associadas à comunidade. A medida também estabelece um marco na atuação do Iphan ao aplicar o instrumento de tombamento previsto para reconhecer comunidades quilombolas e suas reminiscências históricas.

Esse mecanismo deve ser compreendido de maneira específica. O Quilombo Tia Eva é a primeira comunidade inscrita no novo Livro do Tombo, mas isso não significa afirmar que seja o primeiro quilombo do país a receber qualquer forma de reconhecimento patrimonial. A novidade está na utilização desse livro criado pelo Iphan para registrar oficialmente a comunidade nesse contexto.

O reconhecimento também contribui para dar visibilidade a uma história construída por pessoas negras em Campo Grande, cidade localizada na região Centro-Oeste do Brasil. Ao incorporar a trajetória do Quilombo Tia Eva ao patrimônio cultural nacional, o Estado reconhece que a preservação da memória brasileira inclui territórios comunitários, práticas religiosas e saberes transmitidos oralmente.

Memória transmitida entre gerações

A importância do Quilombo Tia Eva está relacionada à continuidade de suas tradições. A devoção, as lembranças sobre Eva Maria de Jesus e as referências ligadas à Igreja de São Benedito permanecem como elementos de identidade para seus descendentes e para a comunidade. O tombamento registra essa trajetória e fortalece sua presença nas políticas públicas de preservação.

Para o patrimônio cultural, a inscrição representa a valorização de uma comunidade quilombola como lugar de memória e de produção cultural. Em Campo Grande, o território reúne marcas materiais e imateriais de uma história que atravessa o período pós-abolição e chega ao presente por meio das relações familiares, religiosas e comunitárias.

Com a entrega do título, o Quilombo Tia Eva passa a ocupar um lugar de destaque na política nacional de preservação. A cerimônia de setembro formalizou um processo iniciado com a declaração do tombamento e consolidado pela inscrição no novo livro do Iphan, reafirmando a importância da comunidade para a cultura brasileira.

Fontes: Ministério da Cultura e Iphan.

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